segunda-feira, 30 de agosto de 2010

"No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo delicioso de se sentir que escorregava de dentro da gente e se esparramava no sorriso. Escapulia no olhar. Cantava no silêncio. Fazia florescer pés de sol no tempo encantado em que estávamos juntos. Dispensava nomes e entendimentos. Havia algo que tinha um cheiro inconfundível de alegria. De vida abraçada. De chuva quando beija a aridez. De lua quando é cheia e o céu diz estrelas. Um cheiro da paz risonha do encontro que é bom.

No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo maravilhoso para ser dado e recebido, daqueles presentes que a vida embrulha com os seus papéis mais bonitos e entrega, toda contente, a duas pessoas. Havia algo para ser trocado, e troca é quando duas vidas se sentem olhadas ao mesmo tempo. Havia algo que fazia um coração falar com o outro, ouvir o que era dito, gostar do que era dito, rir com o que era dito, sentir-se espelhado, sentir-se enternecido, querer brincar, muito além do que qualquer palavra, por qualquer motivo, por qualquer defesa, tentasse, em vão, esclarecer. Uma vontade de parar todos os relógios do mundo para eternizar a dádiva da presença compartilhada, e a impressão de que às vezes até conseguíamos.

No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo que escapava, ileso, dos artifícios todos, todos tolos, que a razão arranjava para não deixar o amor fluir com a beleza dele, o chamado dele, a natureza dele. Amor sempre arruma brecha para escoar entre os dedos temerosos do medo. Pode ser que a gente sinta tanto receio e se proteja tanto, as feridas antigas cicatrizadas coisíssima nenhuma, que nem consiga vivê-lo em sua plenitude. Mas que ele escoa, escoa. Esparrama no sorriso. Escapole no olhar. Canta no silêncio. Diz.

No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo que delatava o desejo, os quarteirões da gente todos iluminados com o fogo feliz da sensualidade, iluminadas as ruas todas que dão acesso ao lugar onde o corpo e a alma costumam se encontrar e dançar numa única canção. Havia algo que não podia ser negado, preterido, amordaçado. Algo que inaugura primavera, tanto faz se é inverno. Algo raro e precioso. Que é perfeito, ao mesmo tempo que consegue incluir todas as imperfeições. Que é lindo, ao mesmo tempo que consegue integrar as esquisitices todas que gente também tem. Havia amor e, de um jeito ou de outro, sabíamos sem nos dizer, havia chegado pra ficar.

O amor quando é amor é amor. "


Mais um texto de Ana Jácomo,que me traduz, que me desvela de toda tentativa de disfarce!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sem fantasia .

"Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer


Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perde-te em meus braços
Pelo amor de Deus


Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu

Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer

De tanto te esperar
Eu quero te contarD
as chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus"

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tempos de MUDAnça


"Sentir o coração desnudo, tantos sentimentos à mostra, um monte de ilusões e apegos sendo dissolvidos, uma reviravolta imensa, e não contar mais com o que se desfez, nem ainda com o que está sendo tecido é mesmo assustador. Não há como retornar ao que já não existe nem como adiantar o relógio para se chegar rapidamente ao que ainda não é. Experimentar na própria alma a força terna e tecelã da vida, ao mesmo tempo em que nos sentimos tão frágeis, é um desafio que requer paciência, toda gentileza e muita fé. As novas flores já moram nos brotos, mas ainda não desabrocharam. A chuva de renovação está dentro das nuvens, mas elas ainda não verteram. A borboleta já voa na crisálida, mas ela ainda nem se deu conta direito da novidade de ter asas."


Ana Jácomo

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Transbordando em furacões.

Lá vou eu de novo tentar escrever porque não consigo gritar. As palavras querem escorrer numa velocidade que não alcanço.Respiro. Preciso dizer-te da minha alegria em saber que me vês. Que vês tão para além do que eu engenhosamente e ingenuamente tentei desfaçar. Ainda me pergunto que hora foi que deixei escapar tanto de mim diante de ti. Agradeço por toda sensibilidade em seu olhar. Mas quando me revelaste o que até eu mesma desviava meu olhar para não reconhecer, não tinhas a medida do tamanho do furacão que estavas a acionar...

Furacão que por tanto tempo eu acreditei que era amor desmedido e que o engolia para não assustar ao outro. Não...o furacão é feito de medidas não medidas de insegurança bruta, de medos, e se o seguro com todas as minhas forças é para que EU não me assuste, e não tu.

Mas ainda há muito que se conhecer para entender. Há de revisitar os meus caminhos até aqui percorridos, há de se entender os Encontros já vividos, há de se mergulhar tão mais fundo em meus olhos...

E, agora que vejo o furacão, não o quero adormecer. Não quero a dor desmerecer. Que se destrua o que não for de perecer. Que se cuide do que há de renascer!






“E a ganância de ser-me inteira prossegue.”

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Ansiedade


Eu respiro fundo umas mil vezes
Pra ver se o peito vai abrindo e se expandindo
Até caber essa ansiedade desembestada
Essa dor que não sei onde acaba
Esse lugar em mim que não conheci

Respiro pedindo calma à minha alma
Pedindo que não se apresse na desesperança
Que me deixe acordar mais criança
Que não queira saber tanto antes do fim

Respiro pedindo tempo ao tempo que em mim escorre
Que não me atropeles, nem eu o sufoque
Que consigamos à paz prometida
Que assim cantemos em uníssono com a Vida