terça-feira, 29 de junho de 2010


"Tem dor que vira companhia. Olhando de perto, faz tempo que deixou de doer, só tem fama, mas a gente não solta. Quem sabe, pelo receio de não saber o que fazer com o espaço, às vezes grande, que ficará desocupado se ela sair de cena. Vazio é também terreno fértil para novos florescimentos, mas costuma causar um medo inacreditável.


Quando, finalmente, criou coragem e deixou de dar casa, comida e roupa lavada para a tal dor, ela desapareceu."


Ana Jácomo.

domingo, 27 de junho de 2010

Alem de coragem,há de se ter muito Amor.


"A amorosidade de que falo, o sonho pelo qual brigo e para cuja realização me preparo permanentemente, exigem em mim, na minha experiencia social, outra qualidade: a coragem de lutar ao lado da coragem de AMAR! "

Paulo Freire



*Para não esquecer o que está no horizonte...

sábado, 26 de junho de 2010

(A)Mar de saudade.


"Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim."

Sophia de Mello


Foto do Mar cearense por Luz...iza MARtins

E hoje não.

"E hoje não. Que não me doa hoje o existir dos outros, que não me doa hoje pensar nessa coisa puída de todos os dias, que não me comovam os olhos alheios e a infinita pobreza dos gestos com que cada um tenta salvar o outro deste barco furado. Que eu mergulhe no roxo deste vazio de amor de hoje e sempre e suporte o sol das cinco horas posteriores, e posteriores, e posteriores ainda. "


Caio, Caio...para minha melancolia bastam tuas palavras.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Grito mudo sem rumo.


Há dias venho tentando traduzir em palavras o que me mexe aqui dentro. Talvez seja essa uma tentativa de conseguir organizar essa bagunça que me tomou, essa intraduzível ventania que me passa e me descabela toda harmonia, esse furacão que me deixa esse nó que me aperta, que me toma o ar. Nenhuma palavra ainda deu conta. Mas se pudesse traduzir em som, acho que seria um grito.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Das ilusões.

"Pra não afundar no poço terrível
Da solidão absoluta
Pra não se perder no caos
Da desordem sem nexo
Os homens precisam
Da ilusão do amor
Assim como precisam
Da ilusão de Deus"

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 23 de junho de 2010


"Só peço a Deus
que a dor não me seja indiferente
que a seca morte não me encontre
vazia e só sem ter feito o suficiente

Só peço a Deus
que o injusto não me seja indiferente
que não me esbofeteem a outra bochecha
Depois que uma garra me arranhou essa sorte

Só peço a Deus
que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e esmaga
Toda pobre inocência da gente
É um monstro grande e esmaga
Toda pobre inocência da gente

Só peço a Deus
que o engano não me seja indiferente
Se um traidor pode mais que uns quantos,
que esses não esqueçam facilmente

Só peço a Deus
que o futuro não me seja indiferente,
Desiludido está o que tem que marchar
para viver uma cultura diferente"
Porque eu prefiro toda a dor da afetação à anestesia alienante.

domingo, 20 de junho de 2010

Deixa eu te contar.

"Eu vou te contar que você não me conhece
E eu tenho que gritar isso
Porque você está surdo e não me ouve
A sedução me escraviza a você
Ao fim de tudo você permanece comigo
Mas preso ao que eu criei e não a mim
E quanto mais falo sobre a verdade inteira
Um abismo maior nos separa
Você não tem um nome e eu tenho
Você é rosto na multidão
E eu sou o centro das atenções
Mas há mentira na aparência do que eu sou
E há mentira na aparência do que você é
Porque eu não sou o meu nome
E você não é ninguém
O jogo perigoso que eu pratico aqui
Busca chegar no limite possível de aproximação
Através da aceitação da distância
Ou do reconhecimento dela
Entre eu e você
Existe a notícia que nos separa
Eu quero que você me veja nu
Eu me dispo da notícia
E a minha nudez parada
Me denuncia e te espelha
Eu me dilato
Tu me relatas
Eu nos acuso e confesso por nós
Assim me livro das palavras
Com a as quais você me veste. "


[texto de Fauzi Arap]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ter fé e ver coragem no Amor.(ou mais um déjà vu!)


Aceitar o fim. Fechar a porta. Deixar morrer pra germinar. Tenho uma demora no peito que faz com que o tempo se dilate na hora do adeus. Revisito, reacendo, deixo sempre a brecha na janela pra ele voltar. Não desato o nó, não fecho a gestalt, insisto até ver a gota final. E ainda que a gota caia, ainda fico olhando-a, vendo o formato que tomará, esperando que ela preencha um Mar. Enquanto isso, cega diante do novo que me ronda, de toda novidade que tente se aproximar. Depois de tantos calendários, quando chega a hora de recomeçar, nunca sei que passo tomar. Fico numa dança sem jeito, rodopiando sem par, sem parar.Mas a Vida sempre ensina. O que veio é o que era minha sina. O que não veio foi esperança partida. E os pra-sempre sempre foram meus.
[Escrito em um tempo distante...]


Respira,menina...Lá está ela de novo, frente a frente com a decepção, essa que insiste em reaparecer em seu caminho, depois de tantas voltas. Coração aperta diante de tudo que lhe parece um “déjà vu”. Sua vida parece disco arranhado, que fica voltando à mesma estrofe que lhe dói os ouvidos. Não pode ser “de novo”, ela quer acreditar na inediticidade das relações, dos encontros. Mas ela poderia jurar já ter visto esse capitulo na sua história. Mais uma vez ela cegara frente à placa à sua frente: era “perigo” ou “siga em frente”? Quanta loucura em confiar desmedidamente e ir num só impulso buscar a felicidade na beira do precipício. Mais uma vez, é chegado o tempo de experimentar de suas asas...Deixar todo o vento levar, deixar o que for passar, olhar além e voar....
[Escrito em um tempo presente, pulsante ainda...]


Vai lá menina, veja que o tempo passou em sua janela. Aviste as mudanças, aceite as distâncias, corra atrás do que valer a pena, suas penas, as penas de suas asas que caem pelo caminho, redesenhando seus vôos...

quinta-feira, 17 de junho de 2010


E as vezes eu me sinto como se estivesse vendo cair gota a gota
e esperasse se formar um Mar...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Isso também não é verdade.

"Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:
- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.

Não, isso também não é verdade."

Mais uma de Caio Fernando Abreu que vem me denunciar.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Não acredito em acasos.


"Olhando daqui, percebo que pessoas e circunstâncias tiveram um propósito maior na minha vida do que muitas vezes, no momento de cada uma, eu soube, pude, aceitei, ler. Parece-me, agora, que cada uma, no seu próprio tempo, do seu próprio modo, veio somar para que eu chegasse até aqui, embora algumas vezes, no calor da emoção da vez, eu tenha me rendido à enganosa impressão de que veio subtrair. A vida tem uma sabedoria que nem sempre alcanço, mas que eu tenho aprendido a respeitar, cada vez com mais fé e liberdade.O tempo, de vento em vento, desmanchou o penteado arrumadinho de várias certezas que eu tinha, e algumas vezes descabelou completamente a minha alma. Mesmo que isso tenha me assustado muito aqui e ali, no somatório de tudo, foi graça, alívio e abertura. A gente não precisa de certezas estáticas. A gente precisa é aprender a manha de saber se reinventar. De se tornar manhã novíssima depois de cada longa noite escura. De duvidar até acreditar com o coração isento das crenças alheias. A gente precisa é saber criar espaço, não importa o tamanho dos apertos. A gente precisa é de um olhar fresco, que não envelhece, apesar de tudo o que já viu. É de um amor que não enruga, apesar das memórias todas na pele da alma. A gente precisa é deixar de ser sobrevivente para, finalmente, viver. A gente precisa mesmo é aprender a ser feliz a partir do único lugar onde a felicidade pode começar, florir, esparramar seus ramos, compartilhar seus frutos.Tudo o que eu vivi me trouxe até aqui e sou grata a tudo, invariavelmente. Curvo meu coração em reverência a todos os mestres, espalhados pelos meus caminhos todos, vestidos de tantos jeitos, algumas vezes disfarçados de dor.Eu mudei muito nos últimos anos, mais até do que já consigo notar, mas ainda não passei a acreditar em acaso."


Texto de Ana Jácomo,que tão bem traduz a mim.

Quem me dera...

Quem dera Deus ter me dado uma alma menos sensível, menos intensa, uma alma não tanto corporificada, nem assim tão viva, nem tão ardente, nem tão contraditória em seu ritmo pulsante. Quisera eu não me afetar tanto com a falta de delicadeza, com a falta de calor nas relações, com a secura dos olhares, com a falta de toque, com as injustiças cotidianas. Ah,mas com uma alma menos intensa também não me encantaria com as pequenas coisas (como aquela borboleta amarela que me faz parar e me arranca sorriso besta para ver ela dançar entre o caos dos carros que correm na minha rua).
E já que estou fadada à intensidade, já que me recobrem flores na pele, hei de provocar tantas outras almas tensas que andam por ai suspirando em busca de tantas razões, insistindo a convidá-las à simplicidade de sentir, sem precisar fazer sentido.


Escrito em 07 de junho de 2010.

Se é loucura, então melhor não ter razão.

Seguir regras, encaixar-se a padrões, adequar-se ao real, sonhar somente sonhos possíveis. Para quê? Para ir onde todo mundo já foi? Para dizer o que se espera que seja dito? Para amar sem emoção? Para ser escravo da razão? Eu não! Eu não quero a clausura da normalidade, as amarras das leis, da obviedade, do habitual. Antes o desesperado que o que é sempre esperado. Prefiro o inédito, o inusitado, o não-pronto. Insisto em inventar realidades, em criar o meu chão, em acreditar no sentimento inédito, em me encantar com o simples, em suspirar em todo pôr do sol, em acreditar que nada é de novo. Eu prefiro a afetação à anestesia. Eu prefiro a loucura exposta à qualquer coisa reprimida. Eu prefiro a criação.


Escrito em 02 de junho de 2010.

sábado, 5 de junho de 2010

Abraça tua loucura.

"— Tenho sete formas. Navegue.
Abraçou-me. Tinha cheiro de mar. Do mar que não há nesta cidade.Pedi que ficasse, como não ficou o outro. Mas não o suportaria, acrescentei a seguir. Sorriu. Como se nada do que eu pudesse dizer fosse capaz de modificar sua partida. Ainda chove, tentei dizer. Não importa, será melhor assim, repetia sua mão estendida. Passou-a devagar na minha face. Eu era uma coisa pequena, rastejante e sem Deus, caminhando no escuro lamacento à procura apenas de qualquer gesto como o toque de uma mão humana, devagar na minha face. Ele tocou. Calçou os sapatos, apanhou o chapéu. Eu quis dizer que poderia ocupar o segundo quarto — a segunda cama, a segunda vida — talvez para sempre. Eu estava tão vivo que qualquer outra coisa também viva e próxima merecia minha mão estendida, oferecendo. Estendi a mão. Ele não podia acei tá-la. Eu não devia estendê-la.
— O navio demora pouco no porto — disse antes de partir.
Um marinheiro desce, olha a terra, às vezes deposita algo, e logo torna a partir.Seus olhos tinham a r do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, durante todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar. Conquistara esse verde móvel, inquieto, esse vagar. Tocou de leve minha mão estendida. E se foi. Ainda chovia. Fechei a porta às suas costas. Por entre os roxos e amarelos da pequena vidraça vertical, podia perceber a silhueta de alguém se afastando. Dentro de uma noite de sábado, não de agosto. Era novembro. Bebi outro gole de conhaque. Fui escorregando para o fundo, no meio das almofadas. Amanhecia. Na casa em frente, os ruídos tinham silenciado. Seria um longo domingo. Não estava triste, mesmo assim recomecei a chorar enquanto ouvia outra vez o aviso guardado para sempre na memória das paredes:
— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais. "

Caio Fernando Abreu